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C. da Passarella A. Descoberta Tinto


Dão Vinho, Tinto

7,30 €

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Num lugar de Lagarinhos, de cujo nome todos se devem lembrar, vivia, há muito, um viticultor que não tinha os pés bem assentes na terra, consequência directa, dizia-se, do seu amor desmedido pelo vinho. Este homem tinha dedicado grande parte da sua vida a levitar com um livro na mão, um copo na boca e a cabeça nas nuvens, e talvez por isso tenha alcançado tanto êxito, apesar da extravagância das suas ideias. Tornou-se exímio na arte da enxertia, que considerava “uma espécie de intervenção cirúrgica de delicada beleza” e propunha que este método se deveria aplicar a tudo na vida. Quando lhe perguntaram como é que conseguia obter sempre a mesma casta magnífica de cada vez que praticava a enxertia numa vinha, respondeu que isso se devia sobretudo ao uso de um espelho. Um espelho?, voltaram a perguntar. Sim, um espelho, respondeu. E logo a seguir começou a explicar: um espelho é, por si só, uma autêntica máquina de enxertia. Qualquer excerto da realidade pode ser enxertado num espelho, sem nunca perder o seu fascínio. Basta que eu enxerte com a melhor casta a primeira videira, para assistir, através do espelho, à reprodução infinita de tudo quanto fiz. Ora, e de que forma é que conseguiu, apenas com um espelho, acabar com o flagelo da filoxera? Muito simples: confundindo o insecto. Contratei um ajudante, um camponês rechonchudo, paciente e um pouco previsível, encarregado de segurar estrategicamente um grande espelho que reflecte serenamente a vinha. Como os insectos têm uma enorme predilecção narcisista, têm tendência a atacar primeiro o reflexo e esquecem-se da verdadeira iguaria. Ficam todos esborrachados ali.